Na vida há 35 anos, 24 deles vividos dentro de uma quadra, de um avião, de um lado para o outro, de ponto a ponto.

Os dígitos vão crescendo e a gente nem lembra quando eram apenas dois zeros, aliás, a única coisa que sabemos são as histórias que ouvimos desse ou daquele parente, histórias que meus pais (Oswaldão e Concepcion) contam com orgulho e com olhos brilhando. Pois bem, foi assim, num desses dias, em que meus pais dizem terem ficado mais felizes, que eu entrei na vida. Precisamente, e isso quem disse foi um tal de tabelião, no dia 12 de abril de 1971. A partir daí, tudo foi correria...

Lembro do dia em que cheguei por essas terras brasileiras, meio sem entender o que que eu estava fazendo por aqui, mas já achando o máximo essa coisa toda de aeroporto, avião, comissária e malas, muitas malas... Meu pai, fotógrafo profissional, e dos bons, acabava de achar um paraíso de imagens, tipos e cores, e eu, acabava de achar o meu país.

Numa dessas coincidências que nada nem ninguém explica, minha primeira escolinha chamava Bola de Neve. Engraçado como as coisas na vida vão se encaixando e a gente só repara depois que está tudo pronto... Bom, e lá ia eu feliz para a aula, na Bola. Dizem, e, mais uma vez, tenho que dar os créditos aos meus pais, que eu era um aluno excepcional (todo pai acha isso do seu filho), mas na realidade eu devo ter sido um daqueles "carinhas de anjo", como a minha tia me chamava. Aliás, é ela mesmo quem conta que não era difícil eu beliscar minha irmã Paula por debaixo da mesa e continuar comendo, sem demonstrar culpa enquanto minha irmã tomava a bronca do século por ter me batido. E ela estava só se defendendo...

E por falar em defesa, ser goleiro era meu forte, pelo menos assim eu pensava. Mas foi uma carreira curta, eu nunca entendia porque as pessoas teimavam em arremessar cadeiras e garrafas nos jogos de futebol de salão. Mas meus pais viram nisso um bom motivo para me tirarem da frente da rede e me colocarem atrás dela.

E foi assim que tudo começou... Dígitos 0 e 8 e agora eu já me lembro quase bem. Minha irmã treinava feito louca, corria de um lado para o outro e aquilo para mim era lindo, inspirador... E assim foi... O Nunes, meu técnico de quem eu tenho um grande carinho, achou que eu levava jeito e passou a me treinar. Aqui entre nós, eu sempre achei, e meus pais também, que a carreira de tenista quem iria seguir era a Paula, mas, numa dessas voltas que nada nem ninguém explica, quem seguiu fui eu. É claro que ela ainda arrasa nas quadras dando aulas, ensinando e incentivando muito mais gente... Assim como ela sempre fez comigo.

Incentivo nunca faltou, de todos os lados, em todos os cantos. Minha vida agora era o tênis. Para dar uma idéia do que isso quer dizer, quem passava as noites em casa, dormindo na cama de baixo da minha, era a raquete... E ela nem precisava pedir para a mãe dela se podia ficar...

Eu e minha raquete jogamos a Copa Futuro, isso eu lembro muito, mas muito bem. Era um torneio daqueles que você nunca quer que acabe. Muita diversão, muitos jogos, muita diversão, muitos amigos, muita diversão.

Divertido não foi o dia em que eu voltei para a Argentina para treinar... Fui para lá, com a cara e a coragem para aperfeiçoar meu jogo. Fui porque eu quis. Meu pai me deixou ir com uma condição: que eu voltasse entre, pelo menos, os 10 melhores da Argentina. Cheguei totalmente inseguro, num lugar que deveria ser minha casa, mas que era, na verdade, a casa da minha vó. Não que ela fosse má pessoa, muito pelo contrário, ô minha vózinha mais gente boa... Eu achando que dava trabalho, ela me ensinando que trabalho é um caminho para ser feliz e nisso, como ela dizia, eu era Doutor... Mas é que ficar longe de casa, dos pais, de tudo e de todos é uma daquelas coisas que nada, nem ninguém explica. Foi dureza, tinha dias que nem os biscoitinhos (chocolinas) nem o nhoque e muito menos a bistequinha da vóvis ajudavam. E ainda tinha aquele desafio de chegar lá sem a menor pontuação de ranking e ter que ser um dos dez melhores...

Ganhei o Sulamericano, ganhei o Banana Bowl, ganhei o Orange Bowl (o maior torneio juvenil). Isso eu não vou esquecer nunca... Liguei para meu pai avisando que eu estava voltando, não entre os dez, mas como número 01 da Argentina e melhor, eu fui número 01 do mundo. Dizem que a gente cresce quando passa por certas coisas... E eu cresci, continuei Fino, mas agora já crescidinho, com bigodinho ralo e tudo. Já me achava um homem e realmente era. Persistência, perseverança, teimosia, garra, garra e garra... Era hora de voltar para o Brasil e virar brasileiro.

Aeroporto, malas, alfândega, vistos... Nunca mais parei, sempre lutando, nunca desistindo, coração batendo, gritando, explodindo dentro do peito. E ela lá, dormindo ao meu ladinho, minha companheira de sempre.

De sempre também as amizades, o carinho dos fãs, os aplausos, os parceiros, a família, sempre a família... E tudo assim... Como nada nem ninguém explica... Mas na minha vida!!

Fernando Meligeni.

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